ARGUMENTO

«Demorámos muito a ter e a manter
certos direitos. Demorámos
muito a ser nação»

Margarita Ledo


Entrevista de Rodrigo Francisco,
publicada no ARGUMENTO 170
Outubro 2021

Margarita Ledo é escritora e cineasta, catedrática de Comunicação Audiovisual na Universidade de Santiago de Compostela. Do seu romance Porta Blindada (1990) sai a personagem masculina de A Cicatriz Branca (2012), o seu primeiro filme de ficção, assumidamente feminista. As suas longas-metragens Santa Liberdade (2004), Liste (2007) e Nación (2020) são exibidas nos Festivais de Málaga, Barcelona, Sevilha, DocLisboa, e em 2017 o festival DocumentaMadrid dedica uma retrospectiva a esta realizadora nascida em Castro de Rei, Lugo.

Coordena o grupo de Estudos Audiovisuais e a série “Para uma história do cinema em língua galega”, com três volumes já publicados: Marcas na Paisagem (2018), A Floresta e as Árvores (2019), De Ilhas e Sereias (2020). Recebe o Prémio Nacional da Cultura Galega em 2008, em Cinema e Audiovisual, e é membro da Real Academia Galega.

Constrói os seus filmes através dos traços de toda a vida, e tanto nas conversas como nos sucessivos filmes e livros transparecem as suas preocupações e interesses. Depois de ilustrar os limites e a grandeza do século XX em três longas-metragens, com episódios épicos (Santa Liberdade), figuras históricas que encarnam lutas (Liste), ou a Galiza através da mulher, do exílio e da migração (A Cicatriz Branca), Margarita Ledo apresenta Nación, que foi acolhido com entusiasmo de público e crítica, tendo estreado em Espanha em Março deste ano, em onze cidades. O filme centra-se num grupo de ex-trabalhadoras da fábrica galega Pontesa, que laborou entre 1961 e 2001, e tem a precariedade e a procura de auto-estima a pesarem nos pratos da balança de uma narrativa vigorosa e plena de ressonâncias, retrato feminino, geracional e colectivo, a propósito do qual escreveu o jornal Público.es: Poucos filmes recentes são ao mesmo tempo tão exigentes e oportunos como este ensaio poético presidido por uma amálgama de materiais, contando com recursos do documentário e da ficção.



«Vi nas redes sociais um vídeo em que uma delas,
dirigindo-se para nós, para um “fora-de-campo”, dizia:
“não trabalhem de graça nunca, por favor.
Que vão à merda!”»


É impossível ficar indiferente ao exemplo das trabalhadoras — a sua coragem, a luta na rua e nos corredores do poder, uma greve geral num contexto que era, convém sublinhar, o dos anos 1980. Até que ponto, antes de iniciar o filme, conhecias a história destas mulheres e da Pontesa?

A ideia inicial progride da perda do direito ao trabalho para as mulheres e do seu contexto — real e imaginário — para o espaço doméstico em resultado da chamada “reconversão industrial” dos anos 1980. Escolhi a Pontesa porque quantitativamente as operárias eram maioritárias, porque se organizaram e ocuparam lugares nos comités, porque criaram laços entre elas — o que hoje chamamos “fraternidade” —, porque, por acaso, vi nas redes sociais um vídeo em que uma delas, dirigindo-se para nós, para um “fora-de-campo”, dizia: “não trabalhem de graça nunca, por favor. Que vão à merda!” Procurei-a. O seu nome é Nieves. Passou a ser a personagem a partir da qual partem todas as outras, uma espécie de Sibila que antecipa e que, apesar de não confiar no futuro, continua activa. E ao começar a trabalhar percebi que ainda resistiam, que estavam em litígio com um investidor que detém parte dos terrenos do Grupo de Empresas Álvarez, ao qual pertence a Pontesa. E sim, percebi melhor o caso na construção do filme.

Nieves, claro, é fascinante, a vários títulos. Como espectadores, uma sensação muito gratificante enquanto vemos Nación é o filme ir para lá da condição de trabalhadoras — e interessar-se genuinamente pelas várias mulheres. E é curioso, elas parecem sentir-se muito confortáveis (embora tenha sido seguramente uma experiência nova para algumas delas).

A princípio foi o encontro com Nieves na horta da sua casa, falando ao acaso até surgirem coisas e causas que tínhamos em comum. Ela foi-me levando às outras mulheres e eu aproveitei a sessão prévia do julgamento, em Setembro de 2019, para observar e fazer a minha escolha porque queria que fossem mulheres diferentes. Não queria ficar só pelo âmbito laboral, mas mostrar vestígios das formas de submissão das mulheres “desde a noite dos tempos” e do silêncio. Isso é antecipado pela esfinge da primeira sequência: “…apagando a escuridão dos meus dedos”. Para sermos conscientes da implicação necessária, no filme foi fulcral a relação de transferência que estabelecemos entre elas e as actrizes e o activar do mesmo princípio: actuas para ti mesma, para dentro; actuas para mim e para uma obra que nos acolhe e nos expressa; e actuas para fora, para quem vai ver o filme. E ao ensaiar foi-se sentindo esse arranjo colectivo que confere textura a todo o filme, até se produzir um entrecruzar de vontades, ambições, de dar “o corpo ao manifesto” que sobressai em Nación.



«É o que significa Nácion: o paradoxo da soberania
popular, o reivindicar com actos a cidadania.»

“Vínhamos para a fábrica para escapar de cavar a terra. Bom, continuámos a cavar terra, mas tínhamos um salário que a terra não nos dava.” Fala-se muito da luta operária, mas poucas vezes vimos o que tem de específica essa luta para as mulheres. E como pode ser transformadora. Como foi captar essa experiência de resistência para estas mulheres?

As mulheres recuperam, através do filme, a sua experiência e aqueles momentos de existência que nos falam de um antes e um depois, como é a passagem da terra e do trabalho não remunerado para a fábrica, uma vez que filmo sempre onde os acontecimentos se deram, lugares que funcionam como dispositivos de memória que fazem emergir a ferida e também a podem sarar. Porque, apesar de terem entrado novas na fábrica, com 14 anos, logo criaram relações entre si, reclamaram coisas pequenas e grandes, tomaram posição e foram solidárias com o movimento social à sua volta — contra a construção da auto-estrada AP-9, por exemplo, ou em prol das greves de 1972 em Vigo —, perderam os medos. E como somos todas a favor da economia produtiva, também filmámos as cerâmicas Arcadia ou as do Castro, que continuam a fabricar louça.


Podemos dizer que construir um documentário, mais do que confirmar factos, é desafiar o distanciamento dos episódios históricos, conseguir abrir horizontes (talvez chegar até temas muito mais universais).

Os documentos têm um estatuto de prova e, ao mesmo tempo, são um dispositivo de distanciamento que procuro inserir, como temporalidade diferente e contraditória, no presente. Por isso procuro sempre três tipos de arquivos documentais: os pessoais, como filmes amadores e familiares; os institucionais, neste caso, a reportagem de propaganda no momento da inauguração da Pontesa; os dos meios de comunicação, aqueles que deveríamos conhecer mas que muitas vezes não são divulgados. Este aspecto foi um dos que chamaram a minha atenção: ver muito material em bruto, sem edição, na televisão pública, que nos dá muita informação não apenas sobre o confronto de interesses na rua e na ocupação do espaço público, para comprovar o que está a acontecer, mas também como modalidade do trabalho jornalístico. Por exemplo, ter tempo para seguir acontecimentos e para filmá-los a partir de dentro. E hoje esta boa prática desapareceu.


Fala-nos um pouco do título, Nación. Parece vincular-se a um reconhecimento de soberania, e sem dúvida, uma busca de cidadania.

Eu trabalho, como criadora e como investigadora, em torno das políticas da diversidade e, no caso, dos small cinemas. São parte de uma Nação sem estado, Galiza, e da sua cultura. A partir dela, expresso-me e relaciono-me com as outras culturas. Num momento do filme, duas personagens dizem uma frase: demorámos muito a ser nação… quer dizer, demorámos muito a ter e manter certos direitos. Porque quando te retiram o direito a um trabalho assalariado, que é o que te permite construir a tua independência, poder decidir, excluem-te da sociedade, da nação. Esse sentido da igualdade impregna todo o filme e é o que significa Nación: o paradoxo da soberania popular, o reivindicar a cidadania com actos.


Nación, Margarita Ledo (Galiza, 2020)
no Cine Clube 21 de Outubro às 21h00

Gostaríamos de saber mais sobre o emprego dos materiais de arquivo em Nación. É uma mistura forte: fotos de antigas minas de carvão de As Pontes do fotojornalista Xosé Castro, o fragmento de Lejos de los Árboles de Jacinto Esteva, imagens da TVE…

As fotos de Xosé Castro, de uma expropriação de terras para a construção de uma central térmica, é o ícone contemporâneo da luta camponesa na Galiza e do papel fundamental das mulheres nela. Uma luta que ressoa na que desenvolvem as operárias do têxtil, da cerâmica, das conservas… e os seus vestígios residem em gravações das próprias, como as da fábrica Odosa, recuperadas no projecto “Contentor de Feminismos”, por exemplo. Além disso, usamos arquivos da nossa particular saída da fábrica, a da La Artística-Alonarti (1928), filmada pelo José Gil, o nosso Lumière, para conferir o passado do presente, que é um dos fios invisíveis de Nación. Mas o filme não se fica pelo mundo laboral, vai mais além. Seja desfiando a memória da repressão sexista na guerra e no pós-guerra, ou o modo como fomos representadas pelo patriarcado através de uma das suas instituições, a Igreja Católica, e como este estereótipo de histéricas foi incorporado por todo o tecido social. Porque o ritual das devotas que deitam o demo pela boca na romaria da Virgem do Corpiño leva-nos para o lugar onde nos permitem o grito. No resto das esferas já sabemos: “caladinha estás melhor.” E quem melhor o filmou foi Jacinto Esteva. As formas do patriarcado são mórbidas, estão em todas as esferas… e o feminismo tem como missão sair delas. ︎


 


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