ARGUMENTO




Dinis Leal Machado:
«Talvez toda a experiência de isolamento nos
recorde da importância de existir um espaço
público para se ver filmes
»


Dinis Leal Machado estudou Tecnologia da Comunicação Audiovisual na Escola Superior de Media Artes e Design, tendo realizado várias curtas-metragens, entre as quais A Minha Paisagem não Existe (2016), Snooze (2017), vencedora do Prémio Sophia, Cringe (2019), e, mais recentemente, A Vida Dura Muito Pouco, que tem passado por vários festivais, entre eles o vistacurta. É um dos fundadores da produtora PAWK, e está a acabar o mestrado em Realização e Produção Audiovisual da ESMAD-IPP.



Onde e quando descobriste o cinema?
Descobri o cinema ao domingo à tarde, no sofá de casa. As matinés de blockbusters com a família foram a primeira experiência de visionamento de filmes. Não era uma sala de cinema a sério, mas lembro-me de sofrer à espera do intervalo para ir à casa de banho. Felizmente havia muitos. Demasiados talvez. A minha mãe facilitava mais, com um olho na cozinha e outro na televisão. O cinema da minha infância cheira a bolo no forno, e tem poeira no ar de tantas vezes que vimos A Múmia. Mas nenhuma imagem me ficou tanto como as curvas da Catherine Zeta-Jones a fintar os lasers anti-roubo em A Armadilha. Nunca mais vi nenhum desses filmes, nem quero. Provavelmente estragaria a imagem que tenho deles. Um pouco mais tarde, saí dessa casa isolada no monte e vim para a Vila das Aves, onde tive oportunidade de ter a disciplina de fotografia do 7.º ao 9.º ano, e de fazer a minha primeira curta-metragem.


Tens trabalhado temáticas que emanam da tua experiência pessoal — até o José Pinhal, mas sobretudo nas ficções. O cinema é uma forma de digerir a vida? O que é que, numa ideia, te faz saber que vale a pena fazê-la chegar à tela e ao público?
À partida, nunca tenho a certeza se uma ideia vale a pena. Quando tenho uma, faço questão de nunca a escrever de imediato. Deixo-a ficar algum tempo, a ver se permanece. Muitas dissipam-se. Essas provavelmente não valiam a pena, nem sequer para mim. Para o público é um pouco mais imprevisível, mas tento acreditar que se uma história, uma personagem me move emocionalmente, poderá mover a audiência. Acho que somos todos muito pouco especiais, que vivemos e sentimos mais ou menos o mesmo (principalmente se nos focarmos numa geração). Nesse sentido, ao escrever a partir da minha experiência pessoal, não quero escrever sobre mim, mas sobre mais alguém. Pode-se dizer que é uma forma de digerir a vida, pois tratar algo que nos é próximo não significa que compreendemos realmente o assunto (neste momento estou a escrever um projecto sobre o casamento na geração millennial e desconfio que sei cada vez menos sobre a questão). Acho que a experiência de fazer um filme é tão mais gratificante (e terrivelmente mais dolorosa) se a jornada de descoberta das personagens for também uma jornada de descoberta para o seu criador.

A Vida Dura MUito Pouco foi exibido na edição de 2020 do vistacurta
A Vida Dura Muito Pouco saiu no início deste ano, tendo sido, provavelmente, muito visto em ecrãs de computador (e sabe-se lá mais que outros), talvez mais do que em grandes telas. Pensas nesta nova maneira de ver filmes quando os fazes? Como é que olhas para esta evolução (que este ano acelerou de forma abismal)?
Não penso nisso quando estou a conceber o filme, não acredito que deva haver um impacto técnico no modo como planeamos o filme. Acho que o verdadeiro impacto é social, a sala de cinema, enquanto lugar de visionamento colectivo, impõe uma relação única entre o espectador e o filme. Existe um respeito para com a sala, a escala da tela é superior à nossa, não temos controlo sobre o filme, não o paramos porque é hora de jantar ou porque podemos deixar o resto para depois. Na sala escura apenas existe o filme.
Em relação à aceleração da migração de público das salas para as plataformas de streaming, acho que um dos grandes problemas é que o cinema está a perder o estatuto de exclusividade sob as estreias que sempre teve, e isso pode ter grandes impactos no grande público, muitas vezes mais motivado pela curiosidade do que pela experiência da sala. Este ano quebraram-se algumas barreiras nesse sentido e não sei se serão recuperáveis. Mas sinceramente, não sei se tudo isto vai funcionar apenas como uma aceleração do processo. A pandemia parece ter aquele efeito psicológico, de que quando nos negam a possibilidade de fazer algo, esse algo de repente torna-se urgente. Tenho o optimismo que a impossibilidade de irmos ao cinema nos leve massivamente às salas mal isto acabe, e talvez toda a experiência de isolamento nos recorde da importância de existir um espaço público para se ver filmes. Só talvez.


A Srª Panorama e, mais recentemente, a Pawk são frutos de uma vontade insolente de descentralizar o cinema em Portugal? Tens conseguido alguns apoios do ICA. A longa tradição de filhos e enteados no cinema português mantém-se ou já estamos noutra fase?
A Srª Panorama foi apenas um projecto de adolescência, uma plataforma para dar corpo ao trabalho que desenvolvia com o meu irmão, sem qualquer pretensão comercial, apenas duas pessoas a tentar fazer filmes com a ajuda dos amigos e da família. A PAWK é diferente, queremos que se torne uma produtora audiovisual de referência. Não vemos o nosso posicionamento geográfico como um posicionamento político. Para já, é apenas uma questão prática, já que foi a norte que estudámos e é aqui que temos a maior parte dos contactos. Gosto de viver e filmar aqui, mas estamos a começar e tentamos gastar o mínimo de energia possível em regionalismos. Com a segunda parte da questão, tudo isto fica mais complicado. Mas sobre financiamentos e as suas eventuais relações familiares ainda tenho muito pouco a dizer: os financiamentos que tive foram apenas no contexto académico. Para a PAWK, e para mim pessoalmente, acho que ainda vai ser um longo percurso, que provavelmente passará, em algum momento, pela capital.



Joana de Sousa:
«Tenho vindo a notar uma perda do lugar para a experimentação,
para a discussão e, principalmente, para o erro. Errar é
importantíssimo para a criação de qualquer trabalho artístico
»


Joana de Sousa pertence ao colectivo Rabbit Hole, colaborando na produção, programação e criação artística em projectos transdisciplinares. Em 2012 foi agraciada com uma bolsa para frequentar o mestrado internacional DocNomads, e o seu filme de tese, Bétail (2014), conquistou a Competição Take One! do Curtas Vila do Conde e uma Menção Honrosa no Hamburg International Short Film Festival. Trabalha há vários anos com o Doclisboa, na área da programação, e desde 2019 que integra a direcção do Festival.


O ma questão irrecusável face à tua experiência no Doclisboa: como vês o presente do cinema em ecrãs cada vez mais pequenos, uma experiência mais individual, e isso afecta a forma de pensar uma programação?
Não considero que o cinema se esteja a tornar numa experiência cada vez mais individual. O futuro do cinema nunca deixará de passar pela sala e pela experiência colectiva de ver um filme. Ao longo do tempo de existência do cinema — ainda curto, para forma de expressão artística — o que se tem visto é um aumento da diversidade de plataformas onde ver filmes. Televisão, VHS, DVD, BluRay, VOD, etc. Considero que todos esses formatos são ferramentas importantes para difundir filmes mas não são os meios pelos quais o cinema consegue chegar à sua forma mais completa.
A vida de grande parte das pessoas hoje em dia é estruturada por uma multitude de ecrãs, o que cria um desequilíbrio entre a cabeça/visão e o corpo. Concentrados nesses ecrãs cada vez mais individuais, alheamo-nos não só dos outros mas também do nosso próprio corpo. Para mim, o cinema é uma experiência que envolve os corpos, o nosso e o das pessoas à nossa volta. Cinema não é somente o acto de ver mas também um gesto de partilha.
Do ponto de vista de um programador, sendo que o meu ponto de partida é a experiência colectiva do cinema, mais concretamente no contexto de um festival, essa multiplicidade de plataformas não afecta necessariamente a minha forma de pensar uma programação. A não ser em casos específicos em que eu saiba que os filmes serão apresentados em meios alternativos, e aí, sim, penso na forma como esses filmes serão percepcionados. Todos os filmes são sentidos de maneira diferente através do grande ecrã, mas há obras em particular que só fazem sentido quando acompanhadas do ritual e ambiente de uma sala de cinema, que nos prepara para o tempo e disponibilidade que o filme possa precisar.


Como realizadora, este mesmo presente/futuro do cinema, mais desligado da experiência social, tem implicações na maneira de fazer filmes?
O acto de fazer cinema é também uma experiência inerentemente colectiva, mesmo quando se filma sozinho. É impraticável um filme ser concebido, produzido e exibido sem haver uma qualquer troca de olhares, experiências e momentos. As vidas de uma série de pessoas cruzam-se e é dessa constelação sinérgica que surge um filme.
Sendo programadora e tendo acesso a um conjunto bastante diversificado de filmes ao longo dos últimos anos, tenho notado que os ecrãs mais pequenos têm moldado uma certa maneira de filmar, principalmente quando se filma sem grandes estruturas de produção. Tenho reparado num desapego à paisagem ou a planos abertos para uma maior atenção a planos mais fechados, a uma proximidade maior a rostos ou pormenores. É algo curioso, mas que não me espanta: na história do cinema a evolução tecnológica sempre influenciou o olhar das pessoas.

O SEU BÉTAIL (2014) conquistou a Competição Take One! do Curtas Vila do Conde e uma Menção Honrosa no Hamburg International Short Film Festival
Parte das dificuldades sentidas no tecido da produção, distribuição e circulação de obras em Portugal poderiam ganhar com projectos de colaboração e de rede. Como vês a nova geração, há sinal de solidariedade entre profissionais e estruturas?
Grande parte do cinema português não teria sido feito se não houvesse um grande espírito de entreajuda entre profissionais do cinema. Não havendo da parte do Estado uma política realista, consistente e sustentável para o cinema, as pessoas vão trabalhando e realizando os seus projectos optimizando ao máximo os poucos recursos que têm disponíveis. Há uma partilha muito grande no cinema e a nova geração não é alheia a esse gesto. Contudo, o que tenho vindo a notar é uma perda do lugar para a experimentação, para a discussão e, principalmente, para o erro. Na forma que existe actualmente, o sistema de apoios ao cinema alimenta a competição, a hierarquia, e elimina por completo a possibilidade de falhar. Errar é importantíssimo para a criação de qualquer trabalho artístico. O valor de um filme não reside nos prémios que conseguiu ou no número de selecções que teve em festivais, mas se esses são os únicos critérios tidos em conta para a possibilidade de continuar a trabalhar, então cria-se um medo enorme de falhar e, acima de tudo, de partilhar o erro. Isto leva a que, por vezes, pessoas se fechem a um processo mais colaborativo de trabalho, principalmente quando ainda se estão a dar os primeiros passos e é mais fácil cair na insegurança. Nunca nos podemos esquecer que é na partilha de medos, vontades, desejos e frustrações que o cinema se constrói e se torna vivo.


Plataformas digitais, salas de cinema, público, cinema de autor. Tópicos que dão pano para mangas, cada um a merecer atenção e a ter o seu peso na evolução do cinema. Qual deles vai exercer maior influência no futuro do cinema?
O cinema sempre habitou diferentes espaços e acredito que essa multiplicidade de expressões vai sempre encontrar lugar, mas é importante haver um constante questionamento das políticas da cultura do país que salvaguardem a criação artística de interesses políticos ou de interesses financeiros privados. O cinema enquanto entretenimento é uma opção válida mas nunca quando a única forma de o cinema existir seja essa. A tecnologia digital veio desafiar mecanismos hegemónicos e possibilitar formas alternativas de produção e distribuição, mas o circuito principal onde os filmes circulam continua ainda a responder a diversos interesses e agendas. É urgente que tanto os profissionais do cinema como o público tenham consciência do seu papel enquanto agente activo no futuro do cinema.



Jorge Jácome:
«A sala de cinema, a película, o 4K, o DCP, os públicos, o iPhone
3000, o 3D com repuxos de água e muitas outras opções podem ser
utilizadas para criar novas formas de pensamento
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Jorge Jácome procura investigar, nas derivas narrativas dos seus filmes, a relação entre utopias, melancolia, desaparecimento e desejo. Os seus filmes foram apresentados em vários festivais de cinema e museus: Berlinale, Toronto, San Sebastian, NYFF, IndieLisboa, Curtas — Vila do Conde, Palais de Tokyo, entre outros. Realizou Past Perfect (2019), que obteve o Prémio de Curta-Metragem da Competição Internacional do IndieLisboa, e Flores (2017), prémio no Punto de Vista, Festival de primeiro plano em Espanha.



D e tudo o que implica fazer um filme, o que é para ti imprescindível?
Tempo! É estranho que o cinema seja a “arte do tempo” e o tempo pareça ser sempre a condicionante mais problemática no processo de se fazer um filme. Bem sei que “tempo é dinheiro”, por isso, quando penso num projecto, a parte financeira também é crucial para começar qualquer coisa. Preciso de ter tempo para pesquisar, para observar, para montar, para namorar, para ouvir, para não fazer nada, para perceber o que é que estive a fazer este tempo todo. E depois também é importante matar o tempo, perder tempo, ter tempo de antena, chegar a tempo, dar tempo ao tempo, push the tempo e sobretudo estar bom tempo.


O que está na origem dos teus filmes? Falemos do primeiro impulso, a primeira certeza que sentes para avançar com um trabalho.
Normalmente as minhas ideias nascem a partir de alguma coisa muito pequena: um sentimento, uma fotografia, uma notícia inverosímil, uma música, qualquer coisa que não percebo bem mas que mais tarde vem a fazer sentido. Gosto de uma sensação a partir da qual tudo começa e que depois invade os projectos, as imagens e o som, como uma constelação que se vai organizando.
O início de cada projecto é sempre muito contraditório: o primeiro impulso diria que é sempre ir contra a ideia estagnada de argumento (como modelo padrão/tradicional de escrita cinematográfica, nada contra este jornal!). No entanto, por razões financeiras, tenho sempre de arranjar uma forma de encaixar as diferentes possibilidades de filmar por escrito — uma palavra a seguir à outra até fazerem sentido. E quando começo a escrever, começo a apaixonar-me pela narrativa, por estrutura, por tradições cinematográficas, por personagens, tudo aquilo que me aborrecia e contra o que estava a tentar lutar. Depois, na rodagem e na montagem volto a destruir tudo e a pôr em causa o que tinha pensado.


Neste dossier, todos os realizadores entrevistados têm menos de 35 anos. Se no passado se dizia que o cinema português estava amarrado pelas “capelinhas”, no futuro do cinema abrir-se-ão portas, ou novos condicionalismos se avistam?
No dia em que respondo a estas perguntas saíram os resultados do concurso “Primeiras Obras” do ICA. Todos os realizadores que ganharam o concurso são homens com mais de 50 anos. Este resultado diz muito dos modelos e das políticas culturais que (ainda) são desenvolvidos em Portugal. Eu sou muito privilegiado porque tenho conseguido desenvolver um trabalho contínuo e permanente na minha área, mas a situação é muito preocupante para muitas pessoas, que nem conseguem começar.


FLORES FOI EXIBIDO NA EDIÇÃO DE 2018 DO VISTACURTA
Plataformas digitais, salas de cinema, público, que papel terão estes elementos no futuro? (e continuamos a privilegiar a sala para ver cinema?)
As diferentes possibilidades de exibição dos filmes são algo que me entusiasma e que me leva a especular sobre o que pode ser “o futuro do cinema”. Quando estou a trabalhar num filme sei, à partida, que o filme vai ser exibido em diferentes formatos, em diferentes salas, em diferentes ecrãs (os meus filmes já foram mostrados em multiplex gigantes e em ecrãs de telemóvel).
Acho, por exemplo, que o meu filme Fiesta Forever (2016) resultou melhor agora, em 2020, em streaming na internet do que propriamente na sala de cinema, no ano que estreou (e o filme foi feito para ser projectado em scope com som 5.1).
Acho interessante pensar sobre como a sala de cinema, a película, o 4K, o DCP, os públicos, o iPhone 3000, o 3D com repuxos de água e muitas outras opções podem ser utilizadas para criar novas formas de pensamento.


O cinema é uma arte que fica para a história como ponta de lança de uma certa homogeneização cultural, ou como um dos garantes de que o mundo, afinal, não se vai estilhaçar no vale da mediocridade?
Eu não tenho uma visão muito optimista para o lugar do cinema no futuro. Pelo menos como o conhecemos… Mas isso não é uma coisa que me assuste, pelo contrário. Espero que o futuro do cinema ocupe um lugar de questionamento activo. Que seja habitado por diferentes formas, mais plurais, mais inclusivas, com diferentes perspectivas e vozes. Que possa ser explorado como meio de expressão, de comunicação, sem se subjugar a formatos estanques.



 


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