ARGUMENTO





Alexandra ‘Xá’ Ramires:
«Pergunto-me quanto tempo ainda nos resta
a fazer filmes em que acreditamos sem
estarmos reféns da ideia de lucro
»


Xá Ramires é uma das fundadoras da BAP, Cooperativa de produção de cinema de animação, onde desenvolve trabalho individual e colectivo. Festivais como Cannes, Toronto, Guadalajara ou Clermont-Ferrand apresentaram filmes da BAP nos últimos anos. Água Mole (2017) é o seu primeiro filme, concebido e realizado conjuntamente com Laura Gonçalves. Em 2020 termina o seu primeiro trabalho em nome individual, Elo, que obteve prémios no Cinanima e vistacurta, depois de estreia mundial no Festival de Zagreb.



Q ue probabilidade há de conseguires, caso tenhas esse objectivo, rodar uma longa de animação até 2030?
Vários requisitos têm de ser cumpridos. O primeiro é ter um projecto que faça sentido ser feito nesse formato, acredito que fazer uma longa não passa por esticar uma ideia de uma curta. O segundo requisito: haver um grande número de pessoas com vontade e capacidade de trabalhar numa longa de animação. Exige uma equipa grande que não é fácil de reunir. Não há um grande número de animadores a trabalhar o tipo de animação que nós fazemos. Acho que pode surgir, pode-se até formar pessoas, mas se se vai formar uma indústria também é bom sentir que há espaço para ter continuidade e que não vai tudo para o desemprego a seguir a concluir um filme. Terceiro requisito, haver financiamento que nos permita fazer filmes de uma forma digna, sem ter que depender de trabalho gratuito ou precário e sem nunca perder a essência do filme. O que, para já, ainda me parece um pouco distante.


A tradição das “capelinhas do cinema português” é para manter, ou já virámos a página?
Sendo o cinema de animação visto por muita gente como uma espécie de parente pobre da sétima arte, acabou por não chegar a ter grande presença nas “capelinhas do cinema português”, pelo menos que eu me tenha apercebido. É a parte boa de ser uma minoria, mais rapidamente nos unimos para verem o nosso trabalho como cinema do que nos dividimos, somos poucos para que essa expressão faça sentido no nosso meio.


No caso dos teus filmes, que têm começado pela observação muito atenta da realidade e chegam à ficção com uma desenvoltura notável, é certo afirmar que esse é um ponto importante?
O real é sempre a raiz. As vozes das entrevistas, sendo elas reais, ajudam-nos a ter uma ancoragem neste mundo em que vivemos, naquilo que é a nossa realidade. Este método também nos ajuda a conseguir uma imersão do espectador por vezes difícil de conseguir quando trabalhamos em animação e em especial a animação em desenho.
No que toca a imagem, o cinema no geral cai muito numa representação realista, parece que para ser credível tem de ser próximo da realidade que conhecemos. No entanto julgo que o desenho em movimento tem valências ricas que nos permitem afastar desse realismo. Um traço tremido, um movimento mais líquido são ferramentas que nos ajudam certamente a transmitir emoções menos categorizáveis e menos óbvias no mundo real, mas com um força própria.


O espaço de um certo cinema social e militante tornar-se-á anacrónico, ou cada vez mais um campo fértil de experimentação?
Acho que as questões sociais vão estar sempre nos filmes. Podemos perguntar-nos é como serão representadas. Se de uma forma única daquele tempo ou se conseguem continuar a comunicar com espectadores de outras gerações, e aqui julgo que a poesia pode desempenhar um papel importante.
A poesia (como uma linguagem mais universal), as causas sociais, assim como a observação do real são especiarias essenciais para temperar o nosso olhar e consequentemente o cinema, independentemente da época em que é feito. Pegando na analogia do tempero, consoante culturas, pontos de vista ou até épocas, podemos comer comida mais salgada outras mais condimentada e por vezes até insossa. Agora comemos comida menos salgada que nos anos 90, porque queremos ser mais saudáveis. E fazemos cinema com um enfoque especial nas causas sociais, porque os tempos que vivemos assim o requerem. Se calhar é uma metáfora parva, mas julgo que pode ajudar a ilustrar. O mundo guia-se cada vez mais por uma visão neo-liberalista e cada vez menos humana, e o cinema muitas vezes lembra-nos desse lado humano. Ao ver o cinema como um lugar de reflexão e como um espaço que podemos criar do zero, é mesmo muito difícil não expor uma visão política e causas sociais.

ELO FOI A CURTA-METRAGEM VENCEDORA DA COMPETIÇÃO NACIONAL DO VISTACURTA 2020
Nunca como hoje se produziu e viu tanto cinema, graças à tecnologia digital. Mas na maioria esmagadora dos casos, num espaço decididamente mainstream, puro entretenimento para nos distrairmos de nós próprios e do que nos rodeia. Perante tanta dispersão, cinema manterá a sua importância como meio de expressão e de comunicação?
A ida ao cinema foi-se tornando dos poucos lugares de reflexão com um tempo necessário, nos últimos anos. Pede uma entrega que já não encontro em mais lugar nenhum no meu quotidiano. O que nos é dado no entretenimento dispersa-me, o cinema aglutina-me. A ideia de estarmos constantemente a comparar cinema e entretenimento, assusta-me muito. O aumento de produção audiovisual que o digital permite não reflecte um aumento de qualidade proporcional. Tornou mais democrática a possibilidade de filmar, mas sinto que o tempo que o cinema requer, poucos lho dedicam. Tudo isto ajudou também a criar um ecossistema fértil para o entretenimento: produções rápidas, baratas e lucrativas. Quando vejo ICA e Netflix de mãos dadas, penso no perigo de banalizarmos este casamento. Pergunto-me quanto tempo ainda nos resta a fazer filmes em que acreditamos sem estarmos reféns da ideia de lucro.


Plataformas digitais, salas de cinema, público, que papel vão desempenhar no futuro? (e continuamos a privilegiar a sala para ver cinema?)
É uma pergunta de difícil resposta. Podemos constatar que o acesso ao dito mainstream (até pelas tais plataformas digitais) é muito mais facilitado que o acesso ao cinema; a linguagem usada nestes filmes e séries é bastante condizente com o quotidiano frenético que vivemos. Por isso acho muito expectável que a Netflix tenha mais consumidores do que as salas de cinema têm espectadores. Mas a importância do cinema não diminui em função do número de pessoas que o vêem. Há pequenos tesouros vistos por muito pouca gente.
Mas para o cidadão comum querer ver cinema é preciso que entenda o seu valor e que o mesmo chegue às pessoas, daí a necessidade que o cinema tem de fundos públicos, festivais e de salas de cinema. Creio que se não houver educação de públicos podemos ter um problema grave. E se o cinema tiver que entrar na competição desenfreada de ter de ser simultaneamente um objecto artístico e um produto lucrativo, aí acredito que deixemos de ter aquilo que julgo ser o cinema.
Aquela notícia que tem mais cliques, vista por milhões de pessoas, não é necessariamente a mais honesta e de maior valor. Este pode mais uma vez ser um exemplo estapafúrdio mas que ajuda a ilustrar o quão perigoso é estarmos dependentes de visualizações. Quero sublinhar que não tenho nada contra os conteúdos mainstream, muito menos contra quem os vê. A ideia nunca será colocar entretenimento contra cinema e vice-versa, a questão passa por não deixar que um faça que o outro desapareça.



Laura Gonçalves:
«O cinema social não se tornará
obsoleto, enquanto houver liberdade
de expressão para o fazer
»


Como animadora, pintora e arte-finalista, Laura Gonçalves trabalhou em filmes de José Miguel Ribeiro, Joana Toste, Vasco Sá e David Doutel, Marta Monteiro. Em 2012 realiza a sua primeira curta-metragem, Três Semanas Em Dezembro, e em 2016 desenvolve e co-realiza com Xá a curta de animação documental Água Mole, com estreia no Festival de Cannes. Fundadora da BAP, onde realiza a sua mais recente curta de animação, O Homem do Lixo.



D e tudo o que implica fazer um filme, o que é para ti imprescindível?
As relações humanas que se criam com a equipa. Especialmente na fase da produção, é uma uma dinâmica de equipa que gera muita criatividade e que me traz um crescimento pessoal e profissional que não acontece quando estou sozinha. Isto deve-se a uma familiaridade que se vai construindo na nossa equipa, que é pequena e muito unida.


E a concorrência, faz parte do passado?
Não sinto que haja essa competição. Claro que a concorrência existe, e ainda bem, obriga a trabalhar sempre melhor, mas para além de nos conhecermos e termos trabalhado já uns com os outros a uma certa altura da nossa vida, existe algo indiscutível que nos une, que é um enorme respeito pelo trabalho de quem faz cinema de animação. Usufruímos mais ou menos dos mesmos meios para fazer os filmes, o que nos coloca a todos em pé de igualdade. Sabemos o que significa fazer um filme de animação e o trabalho por trás disso. Este facto ajuda a manter este sentimento de união.


Os ecos da realidade, o espaço de um certo cinema social e a militância, são áreas que, há muito, têm agitado o cinema português. Se quisermos jogar a cartada da profecia, que espaço no futuro para estas questões?
Acho urgente a existência do cinema social. Enquanto meio de comunicação o cinema possui o poder de chegar a um público bastante abrangente, de diferentes culturas, e a possibilidade de abordar e expor temas que de outra forma seriam desconhecidos ao resto do mundo, de gerar debate, semear conhecimento e eventualmente mudanças sociais e políticas.
As questões sociais serão sempre questões passadas, presentes, e futuras. A importância do cinema social assenta neste ponto fundamental que passa por evidenciar os temas urgentes da sociedade, em constante mudança, e cada vez mais rápida, cheia de informações e falsas informações — precisamos urgentemente dessas vozes. Desta forma o cinema social não se tornará obsoleto, enquanto houver liberdade de expressão para o fazer. É, no entanto, um terreno fértil que dá azo a experimentação. As fronteiras entre as categorias de cinema documental e o cinema poético têm vindo a diluir-se, acho interessante a forma como se tem tirado proveito do que cada uma delas permite transmitir, sem que se perca o sentido da sua intenção principal.
ÁGUA MOLE FOI A CURTA-METRAGEM VENCEDORA DA COMPETIÇÃO NACIONAL DO VISTACURTA 2017
Plataformas digitais, salas de cinema, público, que papel vão desempenhar no futuro? (E continuamos a privilegiar a sala para ver cinema?)
Tal como um templo, a sala cinema é um espaço de reflexão, construído para originar sensações não só através da imagem, mas também pelo som. Durante aquele tempo sabemos que estaremos fechados ao mundo, com uma janela aberta para uma realidade que não conhecemos, e iremos vivenciar. Neste sentido, é importante perceber que o filme feito para cinema enquanto espaço joga com todas as características providenciadas pela sala, para passarem ao público todas as sensações que tornarão a experiência de ver um filme em algo especial. Sabemos que as plataformas digitais irão fazer parte do futuro, já fazem, mas de uma forma muito diferente do cinema, porque estamos na nossa casa, rodeados de distracções. É bom perceber que existe um espaço para os dois, a existência de um não aniquila a existência da outro, ambos cumprem uma função e apresentam uma experiência diferente.



 


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