ARGUMENTO

Novo Argumento


19.06.2020



Número 165.
Edição Junho 2020.

Índice de artigos
GOD’S OWN COUNTRY
Filme de Francis Lee na retina de César Gomes
POST-NADA
Eduardo Ego fala com Edgar Pêra, depois de um live-streaming
O PROTAGONISTA PERDIDO
Filipe Varela revisita noções fundamentais da arte de contar histórias
JEAN-DANIEL POLLET
Fausto Cruchinho apresenta o mundo mudo do realizador francês
MICHAEL HANEKE
Filme do autor austríaco no subsolo de Manuel Pereira
A FIELD IN ENGLAND
de Ben Wheatley no observatório de Susa Monteiro
E AINDA
Livros do Trimestre, Cineclube do Porto

ASSINAR O ARGUMENTO
É dos nossos leitores e associados do CINE CLUBE que dependemos.
Ajude-nos a defender a autonomia do projecto, tornando-se assinante.
Ou propondo a assinatura a um amigo.

Descubra como.




EDITORIAL
Que saudades de ir ao cinema!

Do caminho para lá, umas vezes com tempo de sobra para até beber um copo ali ao lado, com o bilhete já no bolso, outras com medo de já não poder entrar, de perder o lugar ou a hora, ainda a pensar no almoço, no que não se disse, a cantarolar aquela música com que se acordou na cabeça, e ainda a resolver problemas — e que linda aquela janela, nunca tinha reparado, passo aqui tanta vez! —, ainda a pensar no compromisso de amanhã e se será que chove...

Não que nos tenhamos esforçado por isso, mas este Argumento #165 não escapou à excepcionalidade do momento. E, menos pelo presente do que pelo futuro — no qual só pensamos por analogia, não por princípio, porque gostamos de olhar para trás, e, mais do que isso, encontramos lá também tantas vezes o nosso Norte — agradecemos aos que deixaram nos seus relatos ou análises a marca do tempo, mas também aos que não o fizeram: uns lembrar-nos-ão que até durante a peste nos lembrámos de filmes; outros, que os filmes são maiores do que a peste.

Mas depois desta clausura, deste tempo absurdo para digerir e assimilar todos os filmes que já vimos, preparamo-nos para voltar à sala, abrindo-a, porém, muito devagar, como uma palavra que está mesmo debaixo da língua mas não sai.

A lotaria do riso ou do choro de quem se senta ao nosso lado, do seu hálito, do seu ronco, da sua irrequietude num casaco de poliéster, ou, no pior dos casos, da luminosidade do seu telemóvel, vai ficar, como outros desportos, suspensa por uns tempos. E desprezo solenemente quem com isto se regozije, como os que sentem alívio na distância: “para abraçar seu irmão / e beijar sua menina na rua / é que se fez o seu braço / o seu lábio e a sua voz”. De que nos servem nesta antecâmara da vida?

Mas por enquanto será assim. Voltaremos em Junho, agora, e no Verão, a céu aberto, com toda a segurança em dia, para que o mínimo máximo de nós possa retomar o cinema sem perigo e sem medo — quem diria?

Talvez no meio disto descubramos uma telepatia mais forte, talvez cada sessão seja mais especial, mais intimista... Aproveitem agora, aqueles que põem sempre a mochila na cadeira do lado. Quando a sala voltar a encher, vão ter que a pôr no chão.

Até lá, para os tempos mortos como coelhos, para o tédio e o entusiasmo, para as crises mais insuspeitas, aqui vos deixamos o nosso lenitivo, feito com amor no quentinho das nossas casas.

Que saudades do fim do filme, dos olhares à saída, da vontade de chegar a casa, do regresso a casa, com outras coisas na cabeça.



O Cine Clube de Viseu oferece a todos a oportunidade de experienciar, descobrir e aprender mais sobre o mundo do cinema, audiovisual e cultura visual.
︎ Segunda a sexta, das 9h30 às 13h00 
︎ Rua Escura 62, Apartado 2102, 3500-130 Viseu
︎ (+351) 232 432 760 
︎ geral@cineclubeviseu.pt