ARGUMENTO

Por um Punhado de Ókulos

Edgar Pêra


Rubrica Cine-kosmos do ARGUMENTO 169
Julho 2021


EP, usando ókulos cyberpunks™, durante as rodagens da sua primeira longa-metragem, Manual de Evasão LX94.
EP, usando ókulos cyberpunks™, durante as rodagens da sua primeira longa-metragem, Manual de Evasão LX94.
N ão amo o cinema, amo a vida. Mas amo fazer filmes, que é a minha vida. A palavra cinefilia combina duas palavras gregas: kine (movimento) e philos (amigo). Portanto a cinefilia não é um acto de amor, que é, na maioria das vezes, um contrato de exclusividade, mas um gesto de amizade. Há filmes de quem somos amigos fiéis, e com quem nos encontramos repetidas vezes, partilhando essa amizade com outros espectadores em cine-clubes, não em cine-lares. Hoje vou falar-vos de cine-amigos retro-vanguardistas dos longínquos idos de 80. Alguns filmes norte-americanos dessa década pertencem a um movimento paradoxal, que designarei como Vanguarda da Rectaguarda. São pastiches e paródias para consumo generalizado, uma súmula dos clichés fixados nas décadas anteriores. Esses filmes incendiaram repetidas vezes o meu imaginário, obrigando-me a questionar o real de uma forma lúdica. Acredito que aquilo que se pode retirar de um filme não é necessariamente o que o seu autor pretendeu, e que existem filmes que, apesar da sua “menoridade”, podem induzir pensamentos “maiores.”

Já aqui escrevi sobre um desses filmes —  The Adventures of Buckaroo Banzai Across the 8th Dimension — e hoje vou fazê-lo sobre um filme de baixo orçamento, que de menor nada tem: They Live, de John Carpenter (1988). Terei como ponto de partida um texto da minha tese, O Espectador Espantado, e, se forem como eu, se não tiverem ainda visto este filme, por favor não leiam este artigo, porque está polvilhado de SPOILERS (cine-estragos irreparáveis, ou kino-violações em português) e arruinaria todos os momentos (espontâneos) de espanto do filme. Revi com prazer redobrado este filme vezes sem conta, mas o espanto do primeiro visionamento vale realmente a pena sentir, enquanto espectador-virgem.

À altura da estreia de They Live, já tinha iniciado a minha transição de Espectador-Cinéfilo para Espectador-Criador — terminei a escola de cinema em 1984 e comecei a realizar em 85. O que me interessou nestes filmes retro-vanguardistas, enquanto criador neófito de filmes low budget, foi, por exemplo, a possibilidade de filmar através de outros pontos de vista, utilizando estratagemas simples. Em They Live, o truque, apesar de simples, é ambicioso: usando um certo tipo de óculos escuros, podemos ter acesso à realidade “tal qual é”. O filme de Carpenter funciona como uma das mais interessantes cine-parábolas sobre o fundamentalismo, o obscurantismo e o consumismo, e é de uma actualidade confrangedora; sobretudo se não entendermos a História como alternância cíclica de estados de sinal contrário e tivermos a ilusão de que a Humanidade evolui e caminha num progresso infinito.

Nunca vi They Live numa sala de cinema. Foi visto no mesmo ambiente de efusividade cinéfila de Buckaroo Banzai, por exemplo. Recordo o espanto do primeiro visionamento, que é, no fundo, o motivo pelo qual retorno tantas vezes a este filme: para reviver aqueles momentos de espanto e poder admirar o seu mecanismo e ao mesmo tempo decifrar a verdade, adquirir novas perspectivas sobre o mundo. Considero-o, portanto, um filme que muda a forma de pensar. 

They Live, John Carpenter (1988)
They Live tem argumento de John Carpenter, sob pseudónimo de Frank Armitage (em homenagem a uma personagem de Lovecraft), devido à origem heteróclita do guião, baseado num conto de Ray Nelson e numa BD de Nelson e Bill Wray, para além do input da equipa e dos actores. Poderia dizer-se que os preliminares da narrativa são mostrados sob um ângulo neo-realista americano, actualizando o ambiente de As Vinhas da Ira, de Steinbeck/Ford (1940). O protagonista é John Nada — trocadilho óbvio para quem conhecer o significado da palavra românica nada —, um zé-ninguém, um cowboy individualista desempregado, sem abrigo, mais uma vítima da era neo-liberal, imposta por Ronald Reagan nos EUA dos anos 80 do século XX. Quando o filme estreou, John Carpenter afirmou, numa entrevista à Starlog: “They want to own all our businesses. A Universal executive asked me, ‘Where’s the threat in that? We all sell out every day.’ I ended up using that line in the film”. Carpenter classifica assim os monstros alienígenas: “The creatures are corrupting us, so they, themselves, are corruptions of human beings.” E em resposta a uma injúria neo-nazi, que não quero aqui reproduzir, Carpenter confirmou em 2017 (no Tweeter) que o filme era mesmo sobre yuppies e capitalismo selvagem.

A primeira metade do filme é uma lenta marcha de denúncia das consequências do consumismo desenfreado, das desigualdades sociais, ao ritmo de uma toada lenta de blues e dentro das convenções dos filmes de Howard Hawks ou do próprio John Ford. Até ao momento em que explode em mil direcções e significados: quando John Nada (o wrestler Roddy Piper) descobre uns óculos escuros com capacidades extraordinárias.

Quando Nada coloca esses óculos especiais, vê pela primeira vez a realidade “tal qual é”. São três momentos de espanto seguidos, que se sucedem em poucos minutos, e, de seguida, o espectador percorre um labirinto de surpresas. Primeiro, Nada apercebe-se de que o “mundo real” é a preto e branco. Depois, decifra nos televisores, nos placards e nas revistas mensagens subliminares, do tipo “Não tenhas pensamentos originais!” — todas apelando à ordem, ao consumo e à submissão — ou seja, uma manipulação do espírito através de ondas hipnóticas. Apenas com aqueles óculos se pode decifrar a realidade: Nada olha para um anúncio paradisíaco de férias, coloca os óculos e vê que o cartaz tem apenas, em letras garrafais que ocupam todo o cartaz, o slogan “Reproduz-te”.

Com esses óculos, Nada consegue ver “o mundo das ideias”, os arquétipos da sociedade de consumo. É como se, recorrendo à alegoria platónica, saísse do mundo das sombras, abandonasse a caverna para ver o mundo como ele é, e conseguisse vislumbrar a propaganda inacessível aos humanos desprovidos daqueles óculos. E, depois, conseguisse distinguir entre aqueles que são verdadeiros humanos e aqueles que apenas estão disfarçados de humanos — horripilantes seres alienígenas, que, através de ondas hipnóticas, conseguem baralhar o sistema perceptivo humano, fazendo crer que são também eles humanos. São esses falsos humanos que detêm o poder económico, e os verdadeiros humanos são todos lacaios ou desempregados sem-abrigo. Apercebemo-nos, então, que nem todos os humanos o são, e que a classe dirigente se resume a meia dúzia de homens e mulheres e a uma legião de extraterrestres horrendos, lovecraftianos, saídos de uma paranóia dickiana. Toda a realidade humana é uma alucinação induzida por invasores colonialistas extraterrestres.

They Live, John Carpenter (1988)
Esses filmes não me levaram apenas a realizar irónicos “filmes trans-realistas de aventuras” rodados com meios escassos. Com esses filmes de série B, aprendi a questionar a realidade e a procurar pontos de vista diferentes na abordagem da realidade (na rodagem e na montagem). Mas, ao contrário do que cheguei a supor e a imaginar, afastei-me por completo desse tipo de cinema que tanto admirava e de qualquer tipo de cinema de tempo linear e comecei a trabalhar sobre a superfície do ecrã e não no seu “interior” — naquilo que poderemos apelidar de “ficção de ideias”.

Outro espectacular momento de espanto (pela duração da cena, de seis minutos) é a interminável sessão de pancadaria em que John Nada luta com Frank Armitage (personagem interpretada por Keith David, que tem o mesmo nome do argumentista, Carpenter) para convencer o seu amigo a pôr os mágicos óculos escuros e a ver a tal realidade real. A transcrição do diálogo que ocorre durante a cena de violência é reveladora do espírito do filme:

FRANK

I want nothing to do with you. How many people did you kill?


JOHN

They’re not people.


FRANK

You crazy son-of-a-bitch. You ain’t showing me nothing. I’ve got a wife and kids. Leave me alone. Get out of here.


JOHN

No! Try these on.


FRANK

You crazy mother!


JOHN

Put these on.


FRANK

Stay away from me.


JOHN

I’m trying to save you and your
family’s life.


FRANK

You can’t even save yourself.


JOHN

I’m giving you a choice. Put these on or start eating that trash can.


FRANK

Not this year.


JOHN

Okay.


FRANK

Come on.


JOHN

I don’t want to fight you.


[Cena de luta interminável]

FRANK

Stop it.


JOHN

Put on the glasses.


FRANK

I told you I didn’t want to be involved. Dirty motherfucker.


JOHN

Take a look. Put them on.


FRANK

No! I’m sorry.


JOHN

Put the glasses on. Put them on!


[Frank põe finalmente os óculos e vê os alienígenas disfarçados de humanos.]

FRANK

Fuck you! Look! They’re everywhere.


JOHN

Hold on. You aren’t the first one to wake up out of a dream.


FRANK

What’s that?


JOHN

Brother, life’s a bitch ... and she’s back in heat.

They Live é um filme matriz, pela forma como introduz dramaticamente um simples mecanismo trans-percepcionista. Essa cena de luta corpo a corpo (ensaiada durante três semanas) é, a meu ver, a melhor cena de pancadaria de sempre: é uma batalha de ideias, um dos melhores cine-exemplos de duas fés em colisão.

Neste caso, de alguém que anda completamente hipnotizado — é um fanático e não o sabe — com outro que sabe em que mundo vive (o da usurpação da realidade por seres alienígenas) mas não encontra outra forma de dar a ver o mundo tal qual ele é senão recorrendo à violência: é a génese do terrorismo explicada em dois minutos.

A ausência de pontos de vista externos dentro do eu; gente que se recusa a usar também os óculos dos outros; os “terroristas bons” que têm os óculos escuros têm a certeza de fazer o bem: assaltam bancos e assassinam alienígenas, que, para os humanos sem óculos escuros, são iguais a eles próprios — assim como em Matrix, o terrorismo é justificado por um “conhecimento superior” da realidade. They Live remete-nos ainda para o conto clássico de H.G. Wells, A Terra dos Cegos (1904), sobre uma terra habitada unicamente por cegos que se recusam a acreditar que existe o sentido da visão — o mesmo poderá dizer-se da incapacidade de ver outras dimensões para um mesmo problema, que tanto pode ser a realidade como o cinema.

“The world needs a wake-up call”. Nos últimos planos de They Live há uma descentração total da narrativa. Morre a personagem principal, mas o filme continua através de personagens secundárias inéditas. A revolução triunfou, com a destruição dos satélites que controlam a percepção dos humanos. Seguem-se as consequências: na cama de casal, uma mulher humana espantada/aterrorizada descobre durante o acto sexual que está na cama com um horripilante alienígena. O filme termina com os efeitos da revolução perceptiva, não com uma tragédia individual. O espanto destapa a realidade. E esta transforma-se de imediato aos olhos do espectador espantado.

O filme distancia-se do neo-neo-realismo para dar a ver mais do que esta dimensão da realidade. É um filme pós-moderno, de acordo com a definição de Linda Hutcheon: “both academic and popular, elitist and accessible” 1. They Live combate, afinal, o sistema dentro do sistema?
Segundo Hutcheon, “Postmodern film does not deny that it is implicated in capitalist modes of production, because it knows it cannot. Instead it exploits its ‘insider’ position in order to begin a subversion from within, to talk to consumers in a capitalist society in a way that will get us where we live, so to speak” 2.

Sem recorrer ao radicalismo de certas obras ainda impregnadas dos ideais modernistas da irredutibilidade e inacessibilidade, They Live leva-nos até ao lugar onde vivemos com um par de óculos escuros.
De certa forma, Who Is the Master Who Makes the Grass Green?/Os Túneis de Realidade (1996) foi a minha resposta a filmes retro-vanguardistas dos anos 80, como From Beyond, Buckaroo Banzai, Predator e They Live, que usaram kine-óculos com as mais diferentes lentes para representar a percepção da realidade no cinema. E Os Túneis de Realidade pode ser visto como um prólogo de Matrix, estreado 3 anos depois, filme neo-platónico em que a Caverna é um Casulo.

Em Matrix e em They Live existem dois momentos de espanto de teor semelhante: quando o espectador percebe que a realidade é algo de muito diferente daquilo que é processado pelo seu sistema cognitivo: quando John Nada coloca os óculos escuros e vê um mundo a preto e branco dominado por gananciosos capitalistas de outro planeta, e quando Neo se apercebe que vive num mundo virtual, enquanto o seu corpo estava aprisionado num casulo.

O símbolo cyberpunk, iconizado definitivamente no imaginário popular em Matrix, é, em They Live, o instrumento pós-moderno por excelência. Dá a ver a realidade despida, o mundo platónico dos slogans como “Obey: This Is Your God.” São óculos que descascam a realidade, raios-X da sociedade. Permitem aceder ao Outro e esse outro é o Consumista escravizado por ideais alienígenas. Socorremo-nos, pela última vez, das palavras desta teórica do pós-modernismo: “postmodern’s initial concern is (...) to point out that those entities that we unthinkingly experience as ‘natural’ (they might even include capitalism, patriarchy, liberal humanism) are in fact ‘cultural’; made by us, not given to us” 3.

They Live é, nesse sentido, ao denunciar esses agentes culturais sem escrúpulos que ditam o destino das vidas dos escravos modernos, um dos filmes mais revolucionariamente pós-modernos do séc. XX. E seguintes.


1. HUTCHEON, Linda. Theory of Parody. New York/London:  Methuen, 1985; p. 44.
2. Idem, p. 114.
3. Ibidem, pp. 1-2.
 


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